Mato Grosso do Sul é um dos estados que mais violenta mulheres. Em 2024, foi um dos 11 estados em que o número de vítimas de feminicídio aumentou, segundo o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Já em 2025, 39 mulheres foram mortas durante os 12 meses do ano.
Em relação à violência doméstica, MS apresenta um aumento gradual de vítimas na última década: 2015 teve 18.412 registros, e 2024, 21.050. Até outubro de 2025, foram 12.873 casos registrados. Os dados são do Painel Mulheres em Evidência, elaborado pelo OCMS (Observatório da Cidadania de Mato Grosso do Sul).
O Estado também é destaque nacional em casos de estupro. Em 2025, MS ficou em terceiro lugar no ranking de casos — 1.435 —, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro e de São Paulo. A taxa é de 4 vítimas por dia, conforme o Sinesp (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública).
Vítimas
Levantamento da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul) revela que 2.142 pessoas foram vítimas de estupro em 2025 — e 86% desses registros correspondem a vítimas mulheres. Ainda, 20.637 mulheres sofreram violência doméstica e 81 foram vítimas de tentativa de feminicídio.
Em todos os casos, mulheres representam o maior número de vítimas. Mas isso não é novidade. Desigualdades de gênero históricas e estruturais, dinâmicas de poder e normas culturais estão por trás desse cenário.
Para a Subsecretária de Políticas Públicas para Mulheres de MS, Manuela Nicodemos, o alto número de registros pode significar duas coisas: melhora na identificação dos casos e mais visibilidade.
“Houve também melhora na identificação dos casos. O governo do Estado realiza a formação de profissionais da saúde, educação, segurança pública e assistência social para dar mais visibilidade aos casos. Mas é importante frisar que isso não significa necessariamente que a violência aumentou, mas que ela está sendo mais registrada e visibilizada”, afirma.
Crianças
Os índices assustam ainda mais quando um viés dessa violência é escancarado: entre os casos registrados, em 44% — 945 —, as vítimas são crianças. Manuela Nicodemos revela que essa é uma tendência que já vinha sendo observada nos últimos anos.
Na maioria desses casos, o crime é praticado dentro de casa ou por pessoas conhecidas, explica Nicodemos. “De acordo com o Anuário de 2025, 67,9% dos estupros de vulneráveis ocorreram dentro da própria residência da vítima, o que aumenta muito o risco para crianças, que dependem dos adultos para proteção.”
Além disso, o contexto social — escolaridade, renda, comunidade etc. — tem grande influência na identificação do problema. “As desigualdades sociais e territoriais também pesam. Em áreas rurais, comunidades indígenas e municípios menores, o acesso à informação e aos serviços de proteção é mais limitado, o que amplia a vulnerabilidade” ressalta a subsecretária.
Em Mato Grosso do Sul, dados da Sejusp mostram que, em 2025, 813 crianças de 0 a 11 anos foram registradas como vítimas de violência. Vale lembrar do trágico caso de Emanuelly Victoria Souza de Moura, de apenas 6 anos, sequestrada, estuprada e assassinada por um conhecido da família.
Subnotificação
Subnotificação significa que crimes e ocorrências são significativamente menores nos registros oficiais do que na realidade. Isso porque não são registrados ou são registrados de forma incompleta. No caso da violência de gênero, ocorre, muitas vezes, porque as vítimas têm medo e passam por violência psicológica.
A subsecretária explica que “denunciar significa, para a vítima, o medo de perder apoio financeiro, romper vínculos familiares e enfrentar a insegurança. Também existe a cultura do silêncio, em que a violência é escondida para ‘preservar a família’. A vítima pode ser ameaçada, desacreditada ou pressionada a se calar, especialmente quando é criança ou adolescente.”
Como já citado, machismo e questões estruturais de gênero têm relevante papel nos registros não feitos. Mulheres e crianças ocupam cargo de menor poder na hierarquia patriarcal das relações familiares, o que dificulta o reconhecimento da violência e desencoraja a vítima a denunciar.
Além disso, Nicodemos explica que a vítima pode temer que a situação piore e que o agressor cometa atos mais violentos ou se vingue. “Outra questão é a econômica, muitas vítimas, especialmente mulheres e pessoas idosas, dependem financeiramente do agressor, o que torna a perspectiva de sair de casa ou sustentar a si mesmas e, em alguns casos, aos filhos, assustadora”, conclui.
Casos de MS
Vanessa Ricarte
Em fevereiro de 2025, a jornalista Vanessa Ricarte, de 42 anos, foi esfaqueada em casa, em Campo Grande, pelo companheiro, o músico Caio Nascimento. No dia anterior, Vanessa chegou a ir até a Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), acompanhada de um amigo, para registrar um boletim de ocorrência por agressão contra Caio.
No período da tarde, ela foi até sua casa, acompanhada do mesmo amigo, para pegar seus pertences. Chegando à residência, ela foi esfaqueada no peito por Caio. Ele acumulava 11 registros por violência doméstica.
Sophia O’Campo
Aos 2 anos e 7 meses, Sophia morreu em janeiro de 2023, após ser agredida e estuprada pelo padrasto, na casa da mãe, em Campo Grande. O homem agredia a criança com frequência. A mãe argumentou que também era violentada e tinha medo de denunciar o parceiro. A autópsia apontou que Sophia pode ter agonizado por até seis horas antes de morrer.
Aline Barreto da Silva
Em dezembro de 2025, Aline foi a 39ª mulher vítima de feminicídio. Ela foi assassinada a facadas em Ribas do Rio Pardo, por Marcelo Augusto Vinciguerra, de 31 anos, seu ex-companheiro. Aline denunciou Marcelo em abril do mesmo ano por violência doméstica, meses depois de reatar o relacionamento e pedir a revogação da medida protetiva que tinha solicitado contra ele.
Fonte: Jornal Midiamax


