No final de janeiro, um alerta do Reino Unido sobre efeitos raros ligados ao uso dos análogos de GLP-1, classe conhecida como “canetas emagrecedoras”, repercutiu pelo mundo. A Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido (MHRA, na sigla em inglês) afirmou que médicos e pacientes devem estar cientes de que alguns casos de pancreatite aguda graves foram associados a remédios como Wegovy e Mounjaro, aprovados para tratamento da obesidade.
A agência britânica recebeu quase 1,3 mil notificações da condição associada a esses medicamentos entre 2007 e outubro de 2025. Elas incluem 19 mortes e 24 casos de pancreatite necrosante, em que o tecido do pâncreas morre. No Brasil, o sistema VigiMed, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mostra que 145 notificações de suspeitas de pancreatite foram registradas entre 2020 e 2025, incluindo 6 óbitos.
“Apesar do alerta, não houve mudança na relação de risco e eficácia dessas substâncias. Ou seja, os benefícios terapêuticos ainda superam os efeitos adversos, de acordo com as indicações e modos de uso aprovados e constantes da bula”, afirmou a Anvisa, que também emitiu um alerta, em nota.
“A Agência recomenda que os usuários desses medicamentos procurem atendimento médico imediato, em caso de dor abdominal intensa e persistente, que pode irradiar para as costas e vir acompanhada de náuseas e vômitos — sintomas sugestivos de pancreatite. Os profissionais de saúde devem interromper o tratamento, ao suspeitar da reação, e não dar prosseguimento, caso o diagnóstico seja confirmado”, complementou.
Essas ocorrências são suspeitas, ou seja, não foram ainda confirmadas como um efeito diretamente ligado à ação do medicamento. Casos de ideação suicida, por exemplo, também haviam sido associados aos remédios e, por isso, constam na bula dos fármacos, mas investigações recentes das agências reguladoras americanas e europeias descartaram uma ligação direta.
Ainda assim, a pancreatite aguda é considerada um efeito já conhecido e considerado incomum (que acomete de 0,1% a 1% dos casos) observado nos testes clínicos dos medicamentos, e estão nas bulas do Wegovy e do Mounjaro. Segundo a bula do Wegovy, da Novo Nordisk, a frequência dos casos nos testes foi de 0,2%, enquanto no grupo placebo foi de 0,1%. A maioria dos eventos foi classificada como pancreatite aguda leve.
Em nota, a Novo Nordisk diz que “vários fatores de risco estão implicados no desenvolvimento de pancreatite, incluindo diabetes e obesidade”, ou seja, as doenças que motivam o uso dos fármacos. “Os pacientes devem ser informados sobre os sintomas característicos e orientados a descontinuar o tratamento com semaglutida/liraglutida caso haja suspeita de pancreatite, e sugere-se ter cautela em pacientes com histórico de pancreatite prévia”.


