Enquanto os índices gerais de violência no Brasil apresentam queda, um outro cenário avança silenciosamente dentro de casa. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que as mortes violentas intencionais, que incluem homicídios e latrocínios, caíram 5,4% no último levantamento. No entanto, no mesmo período, os feminicídios cresceram 4,7%, mantendo uma tendência de alta observada nos últimos anos.
Segundo a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, a redução da violência urbana não tem alcançado as mulheres, especialmente no ambiente doméstico. Ela apresentou os dados em Campo Grande durante palestra no Seminário In Company “Enfrentamento à violência doméstica e familiar – desafios e caminhos”, voltado a 200 policiais militares do Mato Grosso do Sul.
“O Brasil vive uma redução da violência urbana de forma geral desde 2018, mas isso não se reflete na violência contra a mulher. Pelo contrário, ela está aumentando”, afirma.
A análise indica que o problema vai além dos casos letais. Outros tipos de violência também seguem em crescimento, como agressões físicas, violência psicológica e sexual, além do chamado stalking, comportamento de perseguição que frequentemente antecede crimes mais graves. Segundo a especialista, todos os indicadores relacionados à violência contra a mulher estão em alta.

Os dados fazem parte de estudos como o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e o levantamento “Retrato dos Feminicídios”, produzidos pelo Fórum. As pesquisas incluem também levantamentos de vitimização, que ajudam a mensurar a violência que não chega aos registros oficiais. Em um desses estudos, 37,5% das mulheres brasileiras relataram ter sofrido algum tipo de violência nos últimos 12 meses, o equivalente a mais de 21 milhões de vítimas.
Para Samira, o cenário revela um dos principais desafios das políticas públicas, que é ampliar o alcance da rede de proteção, especialmente fora dos grandes centros.
Outro fator de risco apontado é o acesso a armas de fogo. A presença de armas no ambiente doméstico, segundo a pesquisadora, aumenta significativamente a probabilidade de desfechos fatais em casos de violência.
“Quando o agressor tem acesso à arma, o risco de feminicídio é maior e mais imediato”, alerta.
Para a especialista, o conjunto de dados evidencia uma mudança no perfil da violência no país. Se antes os crimes letais estavam mais associados ao espaço público, hoje cresce a incidência de violência dentro das casas, atingindo principalmente mulheres.
“Não é apenas uma questão de registro melhor. Há um aumento real. E ele exige respostas mais amplas, integradas e contínuas”, conclui Samira. O desafio, segundo ela, é fazer com que a queda geral da criminalidade também alcance os ambientes privados — onde, longe das estatísticas tradicionais, a violência continua a crescer.
Matéria: Campo Grande News




